QUEM
SOU EU
Mulher. Nasci mulher,
e meu pai não me pôde afogar. Berrei - e foi só
a primeira pedra na calçada da desobediência.
Criei-me à deriva, sem freio no sonho. Prendiam-me, e
era solta Soltavam-me, e era mansa pomba. Por caridade
passei fome, ao desleixo, de casa em casa, - e tanta fartura
esbanjada!, mas não há quem me queira , criança
a pedir tendo tanto, a penar tendo nada.... Criei-me, criada
da criada que "trouxeram para mim".... Não
importa! "sou uma princesa encantada, vou pra longe..."
dia após dia aguardava mas ninguém que
me resgatava, mas nem pai, nem príncipe, nem fada!
Fiz-me mulher, sempre odiada. Fui tambor da festa.
Arraial de pancada numa casa que parecia tudo, menos o que era:
Uns a discutir com os outros. Eu a servir todos aliviando-lhes
os braças do trabalho e a raiva, de pancada.
Pior, eu ousava pensar E era revolucionária. Olhava
o horror e o negava. Dentro de mim o nojo enjoava.
A besta de carga arrepiou caminho: Estudar... ai, não
posso! Preciso um emprego, se quero sair viva daqui!
Abri a porta da coragem e falei! Abri a porta da gaiola
de doidos e abalei sem nada. - nada! - má memória!
"Uma mulher que pensa não presta! "um
homem sem riqueza não vale nada" - pois foi com
o mais odiado por meu pai que eu casei! Ele fez de
mim besta, com cornos e de carga. Sofri e calei até dizer
- BASTA! Com uma filha pela mão ia caminhando
e todas as maleitas me iam seguindo até cair, de exausta.
Com todas as forças me reergui. A
filha criada na sua vida instalei. É pecado uma
mulher amar, bem sei, mas eu quis e foi, sim! E amei, e
amei Até se descobrir que vivia uma farsa! Meu
pai morreu e fui eu que o enterrei Meu pai deserdou-me e eu
fiz as honras da deserança. Pena
que não me tenha deserdado das sovas e maus tratos
que passei! Às escuras me alumiei. No inverno
vou na sombra. No verão suporto o sol. Curtem-me
a vida todas dores de sal, de solidão de silêncio,
da insolência dos outros das forças que me faltam
do tostão amargo do sacrifício vão.
Mas tenho uma estrela cá dentro que ninguém
há-de apagar! Mas tenho uns nervos de aço
que ninguém há-de torcer! Mas tenho uma coragem
de ouro que me vem a acompanhar - e é esse o meu
tesouro, que ninguém pode roubar, que as intempéries
não mudam, que está infiltrado em meu sangue
ninguém mo pode tirar mesmo morta, quando o sangue
coalhar! E tenho uma estrela por vela! E tenho um alto sonhar,
de que mais vale pobre e honrada que ter tanto e nada dar!
Fiz rimas com a minha vida: que as venham buscar as ondas,
que eu já não posso ir ao mar. Que as façam
arder na pira onde me hã-de queimar. Que as cerrem
no meu caixão Para ter enfim companhia que tanto
lutei sozinha e ninguém me dá valor!
Maria
1999 |
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LLANTO
DE ALERTA...! Brillan las intensas llamas
El fuego devora el bosque Arden Las casas y aldeas. Envuelta
en llamas, la gente. Sobre las copas de los árboles
Las hogueras son lanzadas arden los campos, los bosques, Hasta
en las sierras sedientas se avivan Las llamas enloquecidas
Gente, animales y plantas Perecen incinerados frustraciones
lágrimas sudores cansancios tantos dolores sin sentido
crepitan llantos aflicciones el humo ahoga los gritos
no llegan sudor y llantos a dominar ese fuego Arden enteros
los bosques Consumiendo la esperanza Con la que fueron sembrados
Luchamos hasta el extremo exhaustos mientras a lo lejos,
otros, se ríen de nuestro esfuerzo y suntuosamente
se alivian en sus piscinas.
María Petronilho
A SAUDADE É UM PORTO DE PARTIDA
A saudade é uma vela translúcida, vibrante,
acesa representando uma estrela tanto arde e não
se queima! não é de terra nem de água
mas é transparente, voa! É ponte que
nos mantém unidos além donde somos sempiternos
viageiros Saudade é flor de arco íris
luze no céu e revemos o ser amado presente.
No imo das nossas almas .. saudade é uma dor doce
não um barco mas um porto donde se parte e se chega
prevendo que nos abriga María Petronilho
Almada, 14/11/2004
Chamo-lhe Meu Paraíso...
Habito numa árvore enorme Em que
cada animal dorme Fechado no seu egoísmo Moro
numa selva nua Anónima, desabitada Onde tudo se atropela.
No meio do meu silêncio Ergo a minha voz e canto
Ou, se há demais sofrimento, Ninguém se ri do
meu pranto. Entre terra e céu construo O meu
jardim, nele habito. Chamo-lhe Éden e ninho Canto
alegre, meu recanto. Pássaros chamam e eu digo
O que digo e vejo e escuto Meu carinho retribuído.
Crescem flores em todo o lado. Tenho os rios num aquário
E o sossego em que fico. Há duas felinas mansas
Que vêm pedir-me mimo, Como fazem as crianças.
Quando a dor é meu tormento Vêm pousar-me
no colo, Consolar-me com carinho. Lá fora, dizem,
é o mundo! Mas aqui dentro asseguro, O meu oásis
no deserto, ... chamo-lhe meu paraíso. Maria Petronilho
APELO DO MAR À POETA
Vem, Poeta, o mar exclama! Vem degustar a
doçura do sal Onde sempre te embalei, Ainda antes
de alguém Ou alguma coisa existir! Vem substanciar
o remoto amor Que longamente nos atrai Que te detém?
Sussurra o mar: Poeta, vem! Vem, que és minha mulher
sereia! Avassala-te em mim onda a onda, Dissolve-te em
mim gota a gota Que é tua, pois te contém.
Rola comigo, Poeta, vem! Embala-te no arrulhar Que te
segredo ao ouvido.... Vem ao rasar da espuma Espojar tua
alma etérea Em minha alma líquida Embala-te
em meus infinitos braços De inebriante amor, Poeta!
Vem Rolar em meu rodar constante! Levar-te-ei Por
delírios que nunca previste, Mundos além..... |